quinta-feira, 1 de julho de 2010

Cara Metade

Ainda bem que não és minha cara, por razões óbvias e não tão óbvias.
Mas és minha metade, com o alento de não teres meus pecados.

Tua generosidade, às vezes, quer nos asfixiar.
Mas, esposo e filhos, entendemos que só queres percorrer teu coração sem cercas para amar.

Tua impetuosidade, às vezes, quer atropelar a maturação do tempo.
Mas, esposo e filhos, não saberíamos viver sem esse teu jeito intempestivo de ser.

A tua voz, às vezes, emite um comando incisivo.
Mas, sem ele, o nosso cotidiano teria a mudez da rotina e a rigidez dos gestos repetidos e sem afeto.

Mas és nossa metade com a força de tuas virtudes.

Te amamos. Feliz aniversário.

Eu, Leo e Marcela.

domingo, 25 de abril de 2010

Um certo Zé

És Zé. Não um zé qualquer. Mas és Zé.

Não mais aquele Zé menino dos mortais no poço atrás da casa do Baixio. Nem o Zé da carrapeta que, a cada lance da bailarina de goiabeira, assungava o calção encardido.

Bem que poderias ter sido o Zé da roça e da enxada sem futuro: o Zé das farinhadas comendo beiju sentado nos tanques de goma.

Poderias, ainda, ter ficado no Zé da bodega do pai. Mas, à luz de lamparinas, insististe no Zé da Escola de Comércio do Crato e te tornaste no Zé técnico em contabilidade. Nem te contentaste com o Zé das Pernambucanas e, seguindo o conselho de seu Pedro Felício, viste-te Zé bancário do Banco de Crédito Comercial.

Não quiseste ser um Zé sem ninguém. E nos giros da Praça Siqueira Campos no Crato, teus olhos verdes de Zé encandearam uma jovem professora metida a importante. E o Zé só deixou de ser sozinho. Nisso, o Zé semeou dois Zés, duas Marias , um Antônio e uma maria sem Maria. Zé formador de gente.

És o Zé amigo dos amigos, amigo dos filhos, dos amigos dos filhos...

És o Zé honesto e íntegro, o mesmo Zé que, quando recém-casado, comprou dois bilhetes de loteria – o seu e do amigo sem que este o soubesse. A sorte grande foi do amigo, e não titubeaste em entregar-lhe o prêmio. Alguns ousaram de te chamar Zé besta, mas sabias que o prêmio maior era outro. Como, de fato, foi. Zé visionário.

És o Zé avô de Natália, Leo, Marcela, Duda, Gabi, Fernandinha, Vitor, Daniel, Lívia, Tetê, Guilherme e Eduardo: tuas pérolas.

És o Zé da mangueira do quintal, do fogo acesso e do churrasco em capinhas. O Zé família.

És Zé, meu pai, que tanto amo e admiro.

domingo, 11 de abril de 2010

De quando Ismênia fez 40 anos

“O tempo não pára!
A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”

Mário Quintana

Manhã feliz como outras tantas que se seguiriam àquela – dádiva de Deus. Sol de inverno no sertão, quente, verde, março. Lá pelos idos anos sessenta. Alvoroço na cozinha. Olhos de menino no céu à procura da cegonha. Na sala, a mudez ansiosa da radiola de 78 rotações.

Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima. Choro. É menina! No rosto da mãe, o inefável sorriso da maternidade. Lágrimas de mãe e filha – por razões distintas – se fundem numa só, prenunciando, já, a comunhão e cumplicidade que marcariam a vida de ambas.

Enquanto no coração geográfico e político do país, militares conspiram um golpe de Estado, uma festa de batizado é organizada na cidade de Brejo Santo. Mas há também a conspiração das nuvens no céu: a chuva é muita, corta a estrada que trazia os padrinhos do Crato, e a festa é adiada pela primeira vez. Nova data é estabelecida, mas as chuvas daquele 64 não dão trégua, o tráfego é interrompido novamente e o batizado vai se realizar finalmente em abril, na terceira tentativa. Coincidência ou não, persistência e festa comporiam para sempre o cotidiano daquela menina de olhos grandes.

Desse tempo fica o registro das fotos em preto e branco no clube em frente da casa nova, a boneca negra, os banhos de tanque na Lagoa do Mato, o bolo com coca cola em dona Edésia depois da missa, a galinha no almoço do domingo, as primeiras letras no Instituto João XXIII de dona Ieda, o passeio no jipe de seu Doca, os cajus em Zé Amaro, bandeirinha vogaz quem vogou não voga mais, a cana doce, os filhotes de passarinho, o feijão verde e a melancia orvalhada apanhados na roça, o presente de natal debaixo da cama, as castanhas torradas em lata, os sorrisos irrestritos de uma infância sem mácula e tropeços...

Mudança para o Crato, cidade maior, de mais gente e do pequeno coral de Divane. Aos poucos, a menina começa ver a mulher chegar no corpo que se avoluma, nas idéias próprias e sensatas, sem rebeldia, serenas. As amizades afloram, há um se deixar gostar, as pessoas percebem... As primeiras paqueras ao redor da fonte luminosa da praça da Sé, nos aniversários de 15 anos, nas voltas do picadeiro do parque de exposição. Há um se deixar gostar, entre a mulher e a menina, de convivência pacífica. E no quarto da casa, entre uma touca e outra, as conversas amigas se prolongam até o quinto ou sexto aviso de já é hora de dormir.

Mas é preciso pensar no futuro, fazer faculdade na capital...

Apartamento de 2 quartos, o apoio da avó materna, a companhia de um irmão – meio menino ainda, é certo. No Colégio Batista se estuda, ampliam-se as amizades, a juventude freme nos gestos e o coração se apaixona. E depois de mais idas do que vindas, entre alegrias, incertezas e angústias, o amor vai tomando forma até que em outro março, lá pelo ocaso dos anos oitenta, igualmente quente, chuvoso, entre amigos e familiares, ele está sacramentado.

Amor que é amor requer abertura e não fica só em si. Amor que é amor se abre para o outro e com o outro, e vai desabrochar numa outra vida, fêmea, como o ultra-som já denunciara. Tem o nome de Natália e um novo sol inunda o apartamento, radiante e imenso como o mar a fluir e refluir defronte e os olhos grandes da menina de outrora não comportam tanta felicidade e aquela manhã primeira se repete.

Alegrias outras se repetem, empapam de Deus o cotidiano como a seqüência de fotos na janela do sítio Misericórdia das tias freiras. O mistério da vida não é para ser decifrado, mas saboreado com todos, numa luta comum, no gosto morno do capim molhado de chuva ou no frio concreto dos prédios que nascem no asfalto.

Os dias passam como são de seu feitio passar. Mas um se deixar gostar se perpetua, as amizades se multiplicam e há um querer bem que atrai, congrega, magnetiza. Há alguém que necessita de um remédio, outro de roupas... A palavra amiga farta de pão corações famintos. E sorrisos longos se desdobram nos gestos longos e acolhedores, quando seus olhos grandes beijam a face de cada um, indistintamente, a sussurrar que a vida não nos pertence. E um canto se elabora e galopa na voz de Milton repetindo que “amigo é coisa p’ra se guardar debaixo de sete chaves...”



Escrito na ocasião dos 40 nos de minha querida irmã Ismênia, dois anos mais nova e séculos à frente no coração.

terça-feira, 6 de abril de 2010

VELHO

essa
árvore
sem
frutos ?

ou
fruto
somente ?

extremo
fruto ?

terça-feira, 30 de março de 2010

Armando Nogueira

"A bola nos pés de Zico é uma flor com cheiro de gol." Armando Nogueira

Dois gênios numa só frase.

sábado, 27 de março de 2010

Dona Maria

Pensei escolher a palavra disponibilidade, mas desisti. Talvez, espontaneidade fizesse mais sentido. Mas não, ainda não diz tudo.

Opto por mãe mesmo. Mãe e pai de quatro meninas e um varão.

Não que todas as mães sejam iguais, mas há aquelas que vivem a maternidade na sua mais extrema radicalidade, quando a doação não encontra limites. Não estou a dizer que tua identidade tenha se diluído no educar cotidiano das filhas e filho. Não deixaste de ser, e, aí, reside teu mérito.

Difícil conciliar o papel de mãe e amiga. Foste mãe; a amiga foi uma consequência.

Foste do oito ou do oitenta no primeiro momento. Mas sempre prevaleceu o meio termo afetuoso no instante seguinte: tua ampla cama acolhia todos.

As dificuldades pela sobrevivência foram tantas... A disposição para o trabalho superou o pouco estudo e a viuvez precoce, quando tua mais velha tinha apenas cinco anos.

Para ti, todos eram amigos. Não digo que fosse ingenuidade. Era teu jeito de esperar sempre o melhor das pessoas. Aliás, essa capacidade de fazer amigos muito contribuiu para a superação das adversidades e afirmação no mundo. Não há registro que teu coração tenha conhecido o rancor.

Teu falar alto e alegre ainda ecoa nas gavetas da memória.

Orgulho-me de seres a avó materna de meus filhos.

Só uma coisa dói-me muito: não poder escrever os verbos no presente.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A paisagem de um tempo



Assaré/CE, num remoto 1983. Mauro, Cláudio, Patativa, esposa, neta, Cacheado e Alana.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Cacheado

"Por ser mais moço
não vi nascer os cachos
mas a lenda ainda hoje é viva
e lhe devolve um tempo de saudade

De dourados e alongados
transformaram-se em black power
símbolo de uma juventude poética
época de inspiração e sonhos

Alguns esquecidos ao longo da vida
outros ressurgidos daqueles velhos cachos
que lhe deixaram com o hábito de alisar os fios
agora enbranquecidos e encrespados
à procura de ideias de menino

Seminário em Recife, faculdade em Sampa
as veias estranguladas da Avenida Paulista
Ferreira Gullar em noites de isolamento
a morte repentina de um amigo

Regressa o jovem engenheiro
e nas engrenagens do destino
fabrica outro caminho

Minha primeira escrivaninha
tábua parafusada no canto do quarto
a luminária improvisada, clareando o futuro
as aulas de geometria
e o cheiro do almoço temperando a fome de domingo
são lembranças guardadas do irmão mais velho
que se dirige às letras cacheado de dourada sabedoria."

Fabrícia Macêdo, maio de 2005.


Eis um retrato de uma alma e de um tempo, enquadrado verso a verso, retalho a retalho, na precisão poética de Fabrícia, inspirada nas muitas falas de Leandro, seu companheiro e meu irmão.

terça-feira, 16 de março de 2010

Padim Quinco

Não consta que foste menino,
um dia,
de brincar de pega e pião.
Talvez,
passarinhos,
mataste de baladeira
nas longas esperas
pastorando arroz.

Mas não consta
que foste menino,
um dia.

A morte prematura do pai,
os irmãos menores
a correr soltos
pelas capoeiras,
a doce cana,
moída em engenho alheio,
fizeram brotar o homem,
cedo, em ti.

Plantador de engenhos,
te impuseste ante
a arrogância de um tio.
Visionário,
sabias que São Paulo
era bem ali,
e negociaste com jipe.
Empreendeste,
arriscaste,
venceste.

Não sei se, alguma vez,
falaste,
na solidão das estradas,
sobre o brilho azul das estrelas no céu
a Zé Madalena,
teu Sancho Pança.

Também não sei
que sonhos tinhas
embalado pelo rádio Transglobe,
embaixo da rede,
nas noites do Coité.

De uma coisa sei:
o tempo não pára de fluir
e abate todos.

Mas, teimoso,
não consta que ficaste velho,
um dia.

Fortaleza, 16/janeiro/2004.
Aniversário de 80 anos
Joaquim Bezerra Monteiro é meu tio e padrinho de batismo. Sua história de vida sempre fascinou meus olhos de menino e de homem. Corajoso e arrojado, esteve sempre à frente de seu tempo.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Hermano

Lá para as bandas de Sobral, mora um engenheiro por vocação, teimosia e criatividade. Íntegro como o espelho cristalino de Alceu, consome as horas na busca de soluções no chão fabril.

Além da inteligência, usa o coração como instrumento de trabalho a conciliar o inconciliável. Gosta de gente, dos números e das letras. Enxerga longe, planeja, prospecta. Sabe da alma humana.

Neste 15 de março, em que fazes 44 anos de vida, meu dileto irmão, juntei alguns versos de teu Alceu, como uma pequena homenagem a ti, que muito admiramos e amamos.

“Quando o sol desmaiar
Já não corro mais perigo:
Meu quarto tem bandeiras.

Essa rua sem céu, sem horizontes
E vinte anos de agonia no coração
São mil horas, mil estrelas
Girando numa roleta
Na tarde de um domingo azul.

Fica o dito e não dito
A toalha na janela
A moça no meio da tarde
Batendo no sino
Tomado de assalto.

Num sonho dourado
Fica a chama, fica a vela
Derretidas na insensatez do asfalto.”


Feliz aniversário!

domingo, 14 de março de 2010

Leandro

O menino mais novo de Zé e Nailée chega aos 40 anos hoje.

Dos cachos dourados de antes, não há indícios. A farda de escoteiro há muito se perdeu, mas ficou o “sempre alerta” a lhe apontar a solidariedade com o próximo.

O relógio Mido do pai, esquecido ao pé da trave do campinho no Crato, talvez ainda registre, num pulso alheio, os minutos de hoje. Mas o tempo marcado foi o da bola, dos dribles ― rápidos uns e alcidinianos outros ―, dos palavrões de jogo a lhe render uma expulsão numa partida assistida pelo pai, das cervejas em Bia e na Lanchonete, dos banhos na AABEC, dos passarinhos engaiolados, do rádio ABC comprado na feira...

Vejo aquele menino com a farda do Batista, a pasta 007 com livros, cadernos e raquete de ping-pong, a escrivaninha improvisada, o pires com pedaços de rapadura e a disciplina no aprender ― a glicose do conhecimento.

Cedo percebeu que a terra a ser arada era outra, sem curvas de nível, sem NPK, sem uréia. Não titubeou em escolher o chão das leis, enfrentar a timidez no falar ― conselho do tio juiz ―, desmentir a falsa lógica dos estereótipos. Tornou-se jurista e professor.

Das carteiras e das escadarias da Faculdade de Direito, trouxe a sua Pretinha, companheira de então e sempre. Com a precisão do velho Mido esquecido na trave, traçou o caminho a ser perfilhado, contrariando o encadeamento dos fatos daqueles que o amavam ainda como o Bebê ― apelido que resiste entre os amigos antigos.

Hoje, pai da Fernandinha, do velho Dan e do recém chegado Eduardo, que é a cara do pai (o importante é que tem saúde!), estudioso do Direito com livros publicados, simples, afetuoso, homem bom.

Vejo, em você, aquele mesmo menino. A memória não permite separar o menino do homem.

Parabéns meu irmão, meu amigo, meu mestre.

sábado, 13 de março de 2010

Feliz Aniversário

Quando mais novo quis ser muitas coisas. Ter também, é claro, mas, principalmente, ser. Sonhei adoidado. Sonhar era parte de minha carne, concreto, absurdamente concreto.

Não eram sonhos megalômanos: coisas simples, como mudar o mundo. Mas mudar em quê? Só sabia que para melhor. Como? Ainda não sei.

Ainda sonho, não mais adoidado; as retinas já não enxergam tanto.

Sonhos tantos se realizaram, é bom que se diga. Escolho dois, que respondem pelo nome de Leo e Marcela, meus rebentos.

Eles foram além do onírico. Têm voz, corpo e algo de inefável. São meus filhos, ou, em outros termos, a concretude da paternidade ― um dos sonhos sonhados.

A realidade suplantou o sonho: foi além, a reforçar a tese que “viver é melhor que sonhar”. Neste caso, não tenho dúvidas.

Amo meu menino e minha menina. Esta meiga e determinada, aquele meigo e fluido. As águas dela a reclamar um leito definido, enquanto as águas dele querem um leito novo.

O oceano é um só, eu sei.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Amanhecer

Ouvir a passarada ao amanhecer é algo inefável. Não é à toa ser ela tão decantada pelos poetas campesinos e urbanos. Aliás, a cantoria dos pássaros é a única vantagem que vejo neste famigerado horário de verão para as bandas do Nordeste. Não que as aves só refestelem-se ao nascer do sol neste novo horário, mas porque com o adiantamento dos relógios em uma hora, nos acordamos com seus pios e notas dissonantes. E como há um enorme pé de oliveira roxa em frente a minha janela, o palco está montado. É só se deliciar...

Mas ouvir o canto dos passarinhos – como carinhosamente os chamamos no Cariri – me remete a outro tempo. Vejo-me com a farda do Colégio Diocesano do Crato, o rádio ao ouvido, descendo a ladeira do Pimenta para comprar pão, cedinho. Com fundo musical de cantos de pássaros, seu Elói apresenta o programa Coisas do Meu Sertão na rádio Araripe. Com seu recitar inconfundível, ele passeia pelos versos dos poetas do sertão: Patativa, Zé da Luz, Cego Aderaldo, Dedé de Zeba e outros muitos.

Coalhada, quartinha de barro, vaca Estrela, gato Mimi, Rosinha, Guleimina, torrão, cacimbinha, tamarineira, mulungu, cadela traíra, azulão, tamborete, alforje, gibão, baladeira, pife, zambumba, peixeira, candeeiro, lamparina, assombração, visagem, arrumação. Coisa. Animal. Planta. Gente. Alma. Tudo costurado em rima e poesia. Pingando aos cachos, gotejando lá dentro, bem fundo, no coração do menino.

Não há como fugir da memória... No poema O luar, Mário Quintana registrou: “o tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...” Mas não param de uma forma estática. A cada bafejo da saudade, elas se rearrumam, despem-se e tornam a se vestir com outras indumentárias. É a dinâmica da memória a re-fabricar fatos, ora para alimentar sonhos presentes, ora para abafar sonhos idos. Trata-se de um mecanismo vital como o aparelho digestivo ou circulatório. E quando ele engripa, engripamos juntos.

E os passarinhos? Eles agora revoam por outras plagas ou no canto necessário, que ecoa dos poetas.

A saudade tem as suas asas e vozes...

31 de outubro de 2001.

terça-feira, 2 de março de 2010

Márcia

Márcia, tem nome tem mar
com suas ondas e seus mistérios.
Tem Cumbuco, tem rock.
Mas, sobretudo, tem o sal da lágrima
que não pude esconder
ante o encanto de teus olhos.

Praia do Cumbuco, num longínquo julho de 1989.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma certa professora e mãe

Em meados dos anos 40, uma jovenzinha de nada percorre, numa montaria, as três léguas do Monte Alegre à casa de Margarida na Vila Alta, onde se asseia, veste a farda do grupo escolar e vai para as lições a pé. É outubro, quando o sertão espraia-se mais luminoso, sem fronteira, sebe, curral. Os seus passinhos firmes e resolutos são indiferentes ao sol do meio dia: trêmulo, amarelo, voraz.

Por esse tempo, já morto o pai, a escola exigiu sapato fechado para a assistência às aulas. Dinheiro pouco, irmãos muitos, o que fazer? Se fosse só ela, mas havia a irmã que estudava também... A solução veio de outra irmã — a primogênita. Compra-se um par e cada uma vai com um pé do sapato e um curativo no outro. E assim se fez.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis irmãos mais novos, meninos, soltos na bagaceira do engenho em frente à casa, na folga dos afazeres domésticos. O futuro não se espera, mas se constrói, sabia. E ali, em meio às caçadas de passarinhos, ao pião de goiabeira, ao pastoril dos animais, se introduz letras, números, palavras... O pouco sabido é ensinado, dividido, multiplicado. E ali, se aprende, sobretudo, o gosto pelo aprender. E ali, o matemático, o engenheiro, o juiz, o administrador e o capitão de infantaria começaram a ser salvos, sob os brancos dias cearenses.

Conta um desses meninos que, quando já rapaz e estudando no Recife, escrevera para a irmã das primeiras letras uma carta cheia de novidades e pedindo, ansioso, notícias para apaziguar a saudade. Recebida a resposta, sofregamente aberto o envelope, a decepção: tratava-se da mesma carta enviada, com as devidas correções gramaticais.

A escola normal cursou no Colégio Santa Teresa e as primeiras aulas oficiais ministrou no Colégio Diocesano, ambos no Crato. Veio o casamento e a mudança para a cidade de Brejo Santo, já mãe de um garoto de nove meses.

É desse tempo o seu primeiro contrato com o Estado. Vice-diretoria no Grupo José Matias Sampaio e aulas no Colégio Balbina Viana Arrais. Faculdade? Só no Crato, a oitenta quilômetros, estrada carroçável, intransitável no período das chuvas. Não há outro jeito, vencer exige sacrifício. E após alguns anos e uns filhos a mais, forma-se em Letras Neolatinas com especialização em Francês. Merci beaucoup, agradecia a todos e a seu Bom Deus.

Retorno ao Crato com cinco rebentos a tiracolo — o sexto não tardaria a chegar. Como também não demorou a que o marido passasse a trabalhar fora da cidade, forçando-a a se desdobrar em mãe, pai e educadora. Colégio Estadual Wilson Gonçalves, Delegacia da Educação, Grupo Escolar Estado da Paraíba — escola modelo —, aulas na Faculdade de Filosofia e acompanhamento das atividades dos filhos. Outra faculdade. Pós-graduação. Secretária de Educação e Cultura do Município.

Corre-corre intenso, mas sem lamúria. Não há avançado da hora que impossibili-te tirar a dúvida de um filho. Pés dentro da bacia de água fria para afugentar o sono, o objeto direto, a oração sem sujeito, meninos e meninas aprendendo a ser sujeito de suas vidas. Não há avançado da hora que impossibilite o ato extremo do amor: a doação sem reservas.

Não há avançado da hora, do dia, do tempo que não reforce no coração e na vida de cada filho seu, a grandeza de seu papel de mãe e educadora amorosa.

Muito obrigado.

Fortaleza, 05 de abril de 2006.
Mensagem lida no Jubileu do Colégio Cinelândia.

10 acertos

Poderia ter sido um. Como poderia não ter sido: sem acerto. Mas não chegaram a cem. Ficamos nos dez: desacertos.