quarta-feira, 24 de março de 2010

Cacheado

"Por ser mais moço
não vi nascer os cachos
mas a lenda ainda hoje é viva
e lhe devolve um tempo de saudade

De dourados e alongados
transformaram-se em black power
símbolo de uma juventude poética
época de inspiração e sonhos

Alguns esquecidos ao longo da vida
outros ressurgidos daqueles velhos cachos
que lhe deixaram com o hábito de alisar os fios
agora enbranquecidos e encrespados
à procura de ideias de menino

Seminário em Recife, faculdade em Sampa
as veias estranguladas da Avenida Paulista
Ferreira Gullar em noites de isolamento
a morte repentina de um amigo

Regressa o jovem engenheiro
e nas engrenagens do destino
fabrica outro caminho

Minha primeira escrivaninha
tábua parafusada no canto do quarto
a luminária improvisada, clareando o futuro
as aulas de geometria
e o cheiro do almoço temperando a fome de domingo
são lembranças guardadas do irmão mais velho
que se dirige às letras cacheado de dourada sabedoria."

Fabrícia Macêdo, maio de 2005.


Eis um retrato de uma alma e de um tempo, enquadrado verso a verso, retalho a retalho, na precisão poética de Fabrícia, inspirada nas muitas falas de Leandro, seu companheiro e meu irmão.

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