segunda-feira, 1 de março de 2010

Uma certa professora e mãe

Em meados dos anos 40, uma jovenzinha de nada percorre, numa montaria, as três léguas do Monte Alegre à casa de Margarida na Vila Alta, onde se asseia, veste a farda do grupo escolar e vai para as lições a pé. É outubro, quando o sertão espraia-se mais luminoso, sem fronteira, sebe, curral. Os seus passinhos firmes e resolutos são indiferentes ao sol do meio dia: trêmulo, amarelo, voraz.

Por esse tempo, já morto o pai, a escola exigiu sapato fechado para a assistência às aulas. Dinheiro pouco, irmãos muitos, o que fazer? Se fosse só ela, mas havia a irmã que estudava também... A solução veio de outra irmã — a primogênita. Compra-se um par e cada uma vai com um pé do sapato e um curativo no outro. E assim se fez.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis irmãos mais novos, meninos, soltos na bagaceira do engenho em frente à casa, na folga dos afazeres domésticos. O futuro não se espera, mas se constrói, sabia. E ali, em meio às caçadas de passarinhos, ao pião de goiabeira, ao pastoril dos animais, se introduz letras, números, palavras... O pouco sabido é ensinado, dividido, multiplicado. E ali, se aprende, sobretudo, o gosto pelo aprender. E ali, o matemático, o engenheiro, o juiz, o administrador e o capitão de infantaria começaram a ser salvos, sob os brancos dias cearenses.

Conta um desses meninos que, quando já rapaz e estudando no Recife, escrevera para a irmã das primeiras letras uma carta cheia de novidades e pedindo, ansioso, notícias para apaziguar a saudade. Recebida a resposta, sofregamente aberto o envelope, a decepção: tratava-se da mesma carta enviada, com as devidas correções gramaticais.

A escola normal cursou no Colégio Santa Teresa e as primeiras aulas oficiais ministrou no Colégio Diocesano, ambos no Crato. Veio o casamento e a mudança para a cidade de Brejo Santo, já mãe de um garoto de nove meses.

É desse tempo o seu primeiro contrato com o Estado. Vice-diretoria no Grupo José Matias Sampaio e aulas no Colégio Balbina Viana Arrais. Faculdade? Só no Crato, a oitenta quilômetros, estrada carroçável, intransitável no período das chuvas. Não há outro jeito, vencer exige sacrifício. E após alguns anos e uns filhos a mais, forma-se em Letras Neolatinas com especialização em Francês. Merci beaucoup, agradecia a todos e a seu Bom Deus.

Retorno ao Crato com cinco rebentos a tiracolo — o sexto não tardaria a chegar. Como também não demorou a que o marido passasse a trabalhar fora da cidade, forçando-a a se desdobrar em mãe, pai e educadora. Colégio Estadual Wilson Gonçalves, Delegacia da Educação, Grupo Escolar Estado da Paraíba — escola modelo —, aulas na Faculdade de Filosofia e acompanhamento das atividades dos filhos. Outra faculdade. Pós-graduação. Secretária de Educação e Cultura do Município.

Corre-corre intenso, mas sem lamúria. Não há avançado da hora que impossibili-te tirar a dúvida de um filho. Pés dentro da bacia de água fria para afugentar o sono, o objeto direto, a oração sem sujeito, meninos e meninas aprendendo a ser sujeito de suas vidas. Não há avançado da hora que impossibilite o ato extremo do amor: a doação sem reservas.

Não há avançado da hora, do dia, do tempo que não reforce no coração e na vida de cada filho seu, a grandeza de seu papel de mãe e educadora amorosa.

Muito obrigado.

Fortaleza, 05 de abril de 2006.
Mensagem lida no Jubileu do Colégio Cinelândia.

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