segunda-feira, 8 de março de 2010

Amanhecer

Ouvir a passarada ao amanhecer é algo inefável. Não é à toa ser ela tão decantada pelos poetas campesinos e urbanos. Aliás, a cantoria dos pássaros é a única vantagem que vejo neste famigerado horário de verão para as bandas do Nordeste. Não que as aves só refestelem-se ao nascer do sol neste novo horário, mas porque com o adiantamento dos relógios em uma hora, nos acordamos com seus pios e notas dissonantes. E como há um enorme pé de oliveira roxa em frente a minha janela, o palco está montado. É só se deliciar...

Mas ouvir o canto dos passarinhos – como carinhosamente os chamamos no Cariri – me remete a outro tempo. Vejo-me com a farda do Colégio Diocesano do Crato, o rádio ao ouvido, descendo a ladeira do Pimenta para comprar pão, cedinho. Com fundo musical de cantos de pássaros, seu Elói apresenta o programa Coisas do Meu Sertão na rádio Araripe. Com seu recitar inconfundível, ele passeia pelos versos dos poetas do sertão: Patativa, Zé da Luz, Cego Aderaldo, Dedé de Zeba e outros muitos.

Coalhada, quartinha de barro, vaca Estrela, gato Mimi, Rosinha, Guleimina, torrão, cacimbinha, tamarineira, mulungu, cadela traíra, azulão, tamborete, alforje, gibão, baladeira, pife, zambumba, peixeira, candeeiro, lamparina, assombração, visagem, arrumação. Coisa. Animal. Planta. Gente. Alma. Tudo costurado em rima e poesia. Pingando aos cachos, gotejando lá dentro, bem fundo, no coração do menino.

Não há como fugir da memória... No poema O luar, Mário Quintana registrou: “o tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...” Mas não param de uma forma estática. A cada bafejo da saudade, elas se rearrumam, despem-se e tornam a se vestir com outras indumentárias. É a dinâmica da memória a re-fabricar fatos, ora para alimentar sonhos presentes, ora para abafar sonhos idos. Trata-se de um mecanismo vital como o aparelho digestivo ou circulatório. E quando ele engripa, engripamos juntos.

E os passarinhos? Eles agora revoam por outras plagas ou no canto necessário, que ecoa dos poetas.

A saudade tem as suas asas e vozes...

31 de outubro de 2001.

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