A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...”
Mário Quintana
Manhã feliz como outras tantas que se seguiriam àquela – dádiva de Deus. Sol de inverno no sertão, quente, verde, março. Lá pelos idos anos sessenta. Alvoroço na cozinha. Olhos de menino no céu à procura da cegonha. Na sala, a mudez ansiosa da radiola de 78 rotações.
Casa de Saúde Nossa Senhora de Fátima. Choro. É menina! No rosto da mãe, o inefável sorriso da maternidade. Lágrimas de mãe e filha – por razões distintas – se fundem numa só, prenunciando, já, a comunhão e cumplicidade que marcariam a vida de ambas.
Enquanto no coração geográfico e político do país, militares conspiram um golpe de Estado, uma festa de batizado é organizada na cidade de Brejo Santo. Mas há também a conspiração das nuvens no céu: a chuva é muita, corta a estrada que trazia os padrinhos do Crato, e a festa é adiada pela primeira vez. Nova data é estabelecida, mas as chuvas daquele 64 não dão trégua, o tráfego é interrompido novamente e o batizado vai se realizar finalmente em abril, na terceira tentativa. Coincidência ou não, persistência e festa comporiam para sempre o cotidiano daquela menina de olhos grandes.
Desse tempo fica o registro das fotos em preto e branco no clube em frente da casa nova, a boneca negra, os banhos de tanque na Lagoa do Mato, o bolo com coca cola em dona Edésia depois da missa, a galinha no almoço do domingo, as primeiras letras no Instituto João XXIII de dona Ieda, o passeio no jipe de seu Doca, os cajus em Zé Amaro, bandeirinha vogaz quem vogou não voga mais, a cana doce, os filhotes de passarinho, o feijão verde e a melancia orvalhada apanhados na roça, o presente de natal debaixo da cama, as castanhas torradas em lata, os sorrisos irrestritos de uma infância sem mácula e tropeços...
Mudança para o Crato, cidade maior, de mais gente e do pequeno coral de Divane. Aos poucos, a menina começa ver a mulher chegar no corpo que se avoluma, nas idéias próprias e sensatas, sem rebeldia, serenas. As amizades afloram, há um se deixar gostar, as pessoas percebem... As primeiras paqueras ao redor da fonte luminosa da praça da Sé, nos aniversários de 15 anos, nas voltas do picadeiro do parque de exposição. Há um se deixar gostar, entre a mulher e a menina, de convivência pacífica. E no quarto da casa, entre uma touca e outra, as conversas amigas se prolongam até o quinto ou sexto aviso de já é hora de dormir.
Mas é preciso pensar no futuro, fazer faculdade na capital...
Apartamento de 2 quartos, o apoio da avó materna, a companhia de um irmão – meio menino ainda, é certo. No Colégio Batista se estuda, ampliam-se as amizades, a juventude freme nos gestos e o coração se apaixona. E depois de mais idas do que vindas, entre alegrias, incertezas e angústias, o amor vai tomando forma até que em outro março, lá pelo ocaso dos anos oitenta, igualmente quente, chuvoso, entre amigos e familiares, ele está sacramentado.
Amor que é amor requer abertura e não fica só em si. Amor que é amor se abre para o outro e com o outro, e vai desabrochar numa outra vida, fêmea, como o ultra-som já denunciara. Tem o nome de Natália e um novo sol inunda o apartamento, radiante e imenso como o mar a fluir e refluir defronte e os olhos grandes da menina de outrora não comportam tanta felicidade e aquela manhã primeira se repete.
Alegrias outras se repetem, empapam de Deus o cotidiano como a seqüência de fotos na janela do sítio Misericórdia das tias freiras. O mistério da vida não é para ser decifrado, mas saboreado com todos, numa luta comum, no gosto morno do capim molhado de chuva ou no frio concreto dos prédios que nascem no asfalto.
Os dias passam como são de seu feitio passar. Mas um se deixar gostar se perpetua, as amizades se multiplicam e há um querer bem que atrai, congrega, magnetiza. Há alguém que necessita de um remédio, outro de roupas... A palavra amiga farta de pão corações famintos. E sorrisos longos se desdobram nos gestos longos e acolhedores, quando seus olhos grandes beijam a face de cada um, indistintamente, a sussurrar que a vida não nos pertence. E um canto se elabora e galopa na voz de Milton repetindo que “amigo é coisa p’ra se guardar debaixo de sete chaves...”
Emocionante ! Parabéns , Leonardo! Muito amor em cada palavra .
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