"A bola nos pés de Zico é uma flor com cheiro de gol." Armando Nogueira
Dois gênios numa só frase.
terça-feira, 30 de março de 2010
sábado, 27 de março de 2010
Dona Maria
Pensei escolher a palavra disponibilidade, mas desisti. Talvez, espontaneidade fizesse mais sentido. Mas não, ainda não diz tudo.
Opto por mãe mesmo. Mãe e pai de quatro meninas e um varão.
Não que todas as mães sejam iguais, mas há aquelas que vivem a maternidade na sua mais extrema radicalidade, quando a doação não encontra limites. Não estou a dizer que tua identidade tenha se diluído no educar cotidiano das filhas e filho. Não deixaste de ser, e, aí, reside teu mérito.
Difícil conciliar o papel de mãe e amiga. Foste mãe; a amiga foi uma consequência.
Foste do oito ou do oitenta no primeiro momento. Mas sempre prevaleceu o meio termo afetuoso no instante seguinte: tua ampla cama acolhia todos.
As dificuldades pela sobrevivência foram tantas... A disposição para o trabalho superou o pouco estudo e a viuvez precoce, quando tua mais velha tinha apenas cinco anos.
Para ti, todos eram amigos. Não digo que fosse ingenuidade. Era teu jeito de esperar sempre o melhor das pessoas. Aliás, essa capacidade de fazer amigos muito contribuiu para a superação das adversidades e afirmação no mundo. Não há registro que teu coração tenha conhecido o rancor.
Teu falar alto e alegre ainda ecoa nas gavetas da memória.
Orgulho-me de seres a avó materna de meus filhos.
Só uma coisa dói-me muito: não poder escrever os verbos no presente.
Opto por mãe mesmo. Mãe e pai de quatro meninas e um varão.
Não que todas as mães sejam iguais, mas há aquelas que vivem a maternidade na sua mais extrema radicalidade, quando a doação não encontra limites. Não estou a dizer que tua identidade tenha se diluído no educar cotidiano das filhas e filho. Não deixaste de ser, e, aí, reside teu mérito.
Difícil conciliar o papel de mãe e amiga. Foste mãe; a amiga foi uma consequência.
Foste do oito ou do oitenta no primeiro momento. Mas sempre prevaleceu o meio termo afetuoso no instante seguinte: tua ampla cama acolhia todos.
As dificuldades pela sobrevivência foram tantas... A disposição para o trabalho superou o pouco estudo e a viuvez precoce, quando tua mais velha tinha apenas cinco anos.
Para ti, todos eram amigos. Não digo que fosse ingenuidade. Era teu jeito de esperar sempre o melhor das pessoas. Aliás, essa capacidade de fazer amigos muito contribuiu para a superação das adversidades e afirmação no mundo. Não há registro que teu coração tenha conhecido o rancor.
Teu falar alto e alegre ainda ecoa nas gavetas da memória.
Orgulho-me de seres a avó materna de meus filhos.
Só uma coisa dói-me muito: não poder escrever os verbos no presente.
quinta-feira, 25 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
Cacheado
"Por ser mais moço
não vi nascer os cachos
mas a lenda ainda hoje é viva
e lhe devolve um tempo de saudade
De dourados e alongados
transformaram-se em black power
símbolo de uma juventude poética
época de inspiração e sonhos
Alguns esquecidos ao longo da vida
outros ressurgidos daqueles velhos cachos
que lhe deixaram com o hábito de alisar os fios
agora enbranquecidos e encrespados
à procura de ideias de menino
Seminário em Recife, faculdade em Sampa
as veias estranguladas da Avenida Paulista
Ferreira Gullar em noites de isolamento
a morte repentina de um amigo
Regressa o jovem engenheiro
e nas engrenagens do destino
fabrica outro caminho
Minha primeira escrivaninha
tábua parafusada no canto do quarto
a luminária improvisada, clareando o futuro
as aulas de geometria
e o cheiro do almoço temperando a fome de domingo
são lembranças guardadas do irmão mais velho
que se dirige às letras cacheado de dourada sabedoria."
Fabrícia Macêdo, maio de 2005.
não vi nascer os cachos
mas a lenda ainda hoje é viva
e lhe devolve um tempo de saudade
De dourados e alongados
transformaram-se em black power
símbolo de uma juventude poética
época de inspiração e sonhos
Alguns esquecidos ao longo da vida
outros ressurgidos daqueles velhos cachos
que lhe deixaram com o hábito de alisar os fios
agora enbranquecidos e encrespados
à procura de ideias de menino
Seminário em Recife, faculdade em Sampa
as veias estranguladas da Avenida Paulista
Ferreira Gullar em noites de isolamento
a morte repentina de um amigo
Regressa o jovem engenheiro
e nas engrenagens do destino
fabrica outro caminho
Minha primeira escrivaninha
tábua parafusada no canto do quarto
a luminária improvisada, clareando o futuro
as aulas de geometria
e o cheiro do almoço temperando a fome de domingo
são lembranças guardadas do irmão mais velho
que se dirige às letras cacheado de dourada sabedoria."
Fabrícia Macêdo, maio de 2005.
Eis um retrato de uma alma e de um tempo, enquadrado verso a verso, retalho a retalho, na precisão poética de Fabrícia, inspirada nas muitas falas de Leandro, seu companheiro e meu irmão.
terça-feira, 16 de março de 2010
Padim Quinco
Não consta que foste menino,
um dia,
de brincar de pega e pião.
Talvez,
passarinhos,
mataste de baladeira
nas longas esperas
pastorando arroz.
Mas não consta
que foste menino,
um dia.
A morte prematura do pai,
os irmãos menores
a correr soltos
pelas capoeiras,
a doce cana,
um dia,
de brincar de pega e pião.
Talvez,
passarinhos,
mataste de baladeira
nas longas esperas
pastorando arroz.
Mas não consta
que foste menino,
um dia.
A morte prematura do pai,
os irmãos menores
a correr soltos
pelas capoeiras,
a doce cana,
moída em engenho alheio,
fizeram brotar o homem,
cedo, em ti.
Plantador de engenhos,
te impuseste ante
a arrogância de um tio.
Visionário,
sabias que São Paulo
era bem ali,
e negociaste com jipe.
Empreendeste,
arriscaste,
venceste.
Não sei se, alguma vez,
falaste,
na solidão das estradas,
sobre o brilho azul das estrelas no céu
a Zé Madalena,
teu Sancho Pança.
Também não sei
que sonhos tinhas
embalado pelo rádio Transglobe,
embaixo da rede,
nas noites do Coité.
De uma coisa sei:
o tempo não pára de fluir
e abate todos.
Mas, teimoso,
não consta que ficaste velho,
um dia.
Fortaleza, 16/janeiro/2004.
fizeram brotar o homem,
cedo, em ti.
Plantador de engenhos,
te impuseste ante
a arrogância de um tio.
Visionário,
sabias que São Paulo
era bem ali,
e negociaste com jipe.
Empreendeste,
arriscaste,
venceste.
Não sei se, alguma vez,
falaste,
na solidão das estradas,
sobre o brilho azul das estrelas no céu
a Zé Madalena,
teu Sancho Pança.
Também não sei
que sonhos tinhas
embalado pelo rádio Transglobe,
embaixo da rede,
nas noites do Coité.
De uma coisa sei:
o tempo não pára de fluir
e abate todos.
Mas, teimoso,
não consta que ficaste velho,
um dia.
Fortaleza, 16/janeiro/2004.
Aniversário de 80 anos
Joaquim Bezerra Monteiro é meu tio e padrinho de batismo. Sua história de vida sempre fascinou meus olhos de menino e de homem. Corajoso e arrojado, esteve sempre à frente de seu tempo.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Hermano
Lá para as bandas de Sobral, mora um engenheiro por vocação, teimosia e criatividade. Íntegro como o espelho cristalino de Alceu, consome as horas na busca de soluções no chão fabril.
Além da inteligência, usa o coração como instrumento de trabalho a conciliar o inconciliável. Gosta de gente, dos números e das letras. Enxerga longe, planeja, prospecta. Sabe da alma humana.
Neste 15 de março, em que fazes 44 anos de vida, meu dileto irmão, juntei alguns versos de teu Alceu, como uma pequena homenagem a ti, que muito admiramos e amamos.
“Quando o sol desmaiar
Já não corro mais perigo:
Meu quarto tem bandeiras.
Essa rua sem céu, sem horizontes
E vinte anos de agonia no coração
São mil horas, mil estrelas
Girando numa roleta
Na tarde de um domingo azul.
Fica o dito e não dito
A toalha na janela
A moça no meio da tarde
Batendo no sino
Tomado de assalto.
Num sonho dourado
Fica a chama, fica a vela
Derretidas na insensatez do asfalto.”
Feliz aniversário!
Além da inteligência, usa o coração como instrumento de trabalho a conciliar o inconciliável. Gosta de gente, dos números e das letras. Enxerga longe, planeja, prospecta. Sabe da alma humana.
Neste 15 de março, em que fazes 44 anos de vida, meu dileto irmão, juntei alguns versos de teu Alceu, como uma pequena homenagem a ti, que muito admiramos e amamos.
“Quando o sol desmaiar
Já não corro mais perigo:
Meu quarto tem bandeiras.
Essa rua sem céu, sem horizontes
E vinte anos de agonia no coração
São mil horas, mil estrelas
Girando numa roleta
Na tarde de um domingo azul.
Fica o dito e não dito
A toalha na janela
A moça no meio da tarde
Batendo no sino
Tomado de assalto.
Num sonho dourado
Fica a chama, fica a vela
Derretidas na insensatez do asfalto.”
Feliz aniversário!
domingo, 14 de março de 2010
Leandro
O menino mais novo de Zé e Nailée chega aos 40 anos hoje.
Dos cachos dourados de antes, não há indícios. A farda de escoteiro há muito se perdeu, mas ficou o “sempre alerta” a lhe apontar a solidariedade com o próximo.
O relógio Mido do pai, esquecido ao pé da trave do campinho no Crato, talvez ainda registre, num pulso alheio, os minutos de hoje. Mas o tempo marcado foi o da bola, dos dribles ― rápidos uns e alcidinianos outros ―, dos palavrões de jogo a lhe render uma expulsão numa partida assistida pelo pai, das cervejas em Bia e na Lanchonete, dos banhos na AABEC, dos passarinhos engaiolados, do rádio ABC comprado na feira...
Vejo aquele menino com a farda do Batista, a pasta 007 com livros, cadernos e raquete de ping-pong, a escrivaninha improvisada, o pires com pedaços de rapadura e a disciplina no aprender ― a glicose do conhecimento.
Cedo percebeu que a terra a ser arada era outra, sem curvas de nível, sem NPK, sem uréia. Não titubeou em escolher o chão das leis, enfrentar a timidez no falar ― conselho do tio juiz ―, desmentir a falsa lógica dos estereótipos. Tornou-se jurista e professor.
Das carteiras e das escadarias da Faculdade de Direito, trouxe a sua Pretinha, companheira de então e sempre. Com a precisão do velho Mido esquecido na trave, traçou o caminho a ser perfilhado, contrariando o encadeamento dos fatos daqueles que o amavam ainda como o Bebê ― apelido que resiste entre os amigos antigos.
Hoje, pai da Fernandinha, do velho Dan e do recém chegado Eduardo, que é a cara do pai (o importante é que tem saúde!), estudioso do Direito com livros publicados, simples, afetuoso, homem bom.
Vejo, em você, aquele mesmo menino. A memória não permite separar o menino do homem.
Parabéns meu irmão, meu amigo, meu mestre.
Dos cachos dourados de antes, não há indícios. A farda de escoteiro há muito se perdeu, mas ficou o “sempre alerta” a lhe apontar a solidariedade com o próximo.
O relógio Mido do pai, esquecido ao pé da trave do campinho no Crato, talvez ainda registre, num pulso alheio, os minutos de hoje. Mas o tempo marcado foi o da bola, dos dribles ― rápidos uns e alcidinianos outros ―, dos palavrões de jogo a lhe render uma expulsão numa partida assistida pelo pai, das cervejas em Bia e na Lanchonete, dos banhos na AABEC, dos passarinhos engaiolados, do rádio ABC comprado na feira...
Vejo aquele menino com a farda do Batista, a pasta 007 com livros, cadernos e raquete de ping-pong, a escrivaninha improvisada, o pires com pedaços de rapadura e a disciplina no aprender ― a glicose do conhecimento.
Cedo percebeu que a terra a ser arada era outra, sem curvas de nível, sem NPK, sem uréia. Não titubeou em escolher o chão das leis, enfrentar a timidez no falar ― conselho do tio juiz ―, desmentir a falsa lógica dos estereótipos. Tornou-se jurista e professor.
Das carteiras e das escadarias da Faculdade de Direito, trouxe a sua Pretinha, companheira de então e sempre. Com a precisão do velho Mido esquecido na trave, traçou o caminho a ser perfilhado, contrariando o encadeamento dos fatos daqueles que o amavam ainda como o Bebê ― apelido que resiste entre os amigos antigos.
Hoje, pai da Fernandinha, do velho Dan e do recém chegado Eduardo, que é a cara do pai (o importante é que tem saúde!), estudioso do Direito com livros publicados, simples, afetuoso, homem bom.
Vejo, em você, aquele mesmo menino. A memória não permite separar o menino do homem.
Parabéns meu irmão, meu amigo, meu mestre.
sábado, 13 de março de 2010
Feliz Aniversário
Quando mais novo quis ser muitas coisas. Ter também, é claro, mas, principalmente, ser. Sonhei adoidado. Sonhar era parte de minha carne, concreto, absurdamente concreto.
Não eram sonhos megalômanos: coisas simples, como mudar o mundo. Mas mudar em quê? Só sabia que para melhor. Como? Ainda não sei.
Ainda sonho, não mais adoidado; as retinas já não enxergam tanto.
Sonhos tantos se realizaram, é bom que se diga. Escolho dois, que respondem pelo nome de Leo e Marcela, meus rebentos.
Eles foram além do onírico. Têm voz, corpo e algo de inefável. São meus filhos, ou, em outros termos, a concretude da paternidade ― um dos sonhos sonhados.
A realidade suplantou o sonho: foi além, a reforçar a tese que “viver é melhor que sonhar”. Neste caso, não tenho dúvidas.
Amo meu menino e minha menina. Esta meiga e determinada, aquele meigo e fluido. As águas dela a reclamar um leito definido, enquanto as águas dele querem um leito novo.
O oceano é um só, eu sei.
Não eram sonhos megalômanos: coisas simples, como mudar o mundo. Mas mudar em quê? Só sabia que para melhor. Como? Ainda não sei.
Ainda sonho, não mais adoidado; as retinas já não enxergam tanto.
Sonhos tantos se realizaram, é bom que se diga. Escolho dois, que respondem pelo nome de Leo e Marcela, meus rebentos.
Eles foram além do onírico. Têm voz, corpo e algo de inefável. São meus filhos, ou, em outros termos, a concretude da paternidade ― um dos sonhos sonhados.
A realidade suplantou o sonho: foi além, a reforçar a tese que “viver é melhor que sonhar”. Neste caso, não tenho dúvidas.
Amo meu menino e minha menina. Esta meiga e determinada, aquele meigo e fluido. As águas dela a reclamar um leito definido, enquanto as águas dele querem um leito novo.
O oceano é um só, eu sei.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Amanhecer
Ouvir a passarada ao amanhecer é algo inefável. Não é à toa ser ela tão decantada pelos poetas campesinos e urbanos. Aliás, a cantoria dos pássaros é a única vantagem que vejo neste famigerado horário de verão para as bandas do Nordeste. Não que as aves só refestelem-se ao nascer do sol neste novo horário, mas porque com o adiantamento dos relógios em uma hora, nos acordamos com seus pios e notas dissonantes. E como há um enorme pé de oliveira roxa em frente a minha janela, o palco está montado. É só se deliciar...
Mas ouvir o canto dos passarinhos – como carinhosamente os chamamos no Cariri – me remete a outro tempo. Vejo-me com a farda do Colégio Diocesano do Crato, o rádio ao ouvido, descendo a ladeira do Pimenta para comprar pão, cedinho. Com fundo musical de cantos de pássaros, seu Elói apresenta o programa Coisas do Meu Sertão na rádio Araripe. Com seu recitar inconfundível, ele passeia pelos versos dos poetas do sertão: Patativa, Zé da Luz, Cego Aderaldo, Dedé de Zeba e outros muitos.
Coalhada, quartinha de barro, vaca Estrela, gato Mimi, Rosinha, Guleimina, torrão, cacimbinha, tamarineira, mulungu, cadela traíra, azulão, tamborete, alforje, gibão, baladeira, pife, zambumba, peixeira, candeeiro, lamparina, assombração, visagem, arrumação. Coisa. Animal. Planta. Gente. Alma. Tudo costurado em rima e poesia. Pingando aos cachos, gotejando lá dentro, bem fundo, no coração do menino.
Não há como fugir da memória... No poema O luar, Mário Quintana registrou: “o tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...” Mas não param de uma forma estática. A cada bafejo da saudade, elas se rearrumam, despem-se e tornam a se vestir com outras indumentárias. É a dinâmica da memória a re-fabricar fatos, ora para alimentar sonhos presentes, ora para abafar sonhos idos. Trata-se de um mecanismo vital como o aparelho digestivo ou circulatório. E quando ele engripa, engripamos juntos.
E os passarinhos? Eles agora revoam por outras plagas ou no canto necessário, que ecoa dos poetas.
A saudade tem as suas asas e vozes...
31 de outubro de 2001.
Mas ouvir o canto dos passarinhos – como carinhosamente os chamamos no Cariri – me remete a outro tempo. Vejo-me com a farda do Colégio Diocesano do Crato, o rádio ao ouvido, descendo a ladeira do Pimenta para comprar pão, cedinho. Com fundo musical de cantos de pássaros, seu Elói apresenta o programa Coisas do Meu Sertão na rádio Araripe. Com seu recitar inconfundível, ele passeia pelos versos dos poetas do sertão: Patativa, Zé da Luz, Cego Aderaldo, Dedé de Zeba e outros muitos.
Coalhada, quartinha de barro, vaca Estrela, gato Mimi, Rosinha, Guleimina, torrão, cacimbinha, tamarineira, mulungu, cadela traíra, azulão, tamborete, alforje, gibão, baladeira, pife, zambumba, peixeira, candeeiro, lamparina, assombração, visagem, arrumação. Coisa. Animal. Planta. Gente. Alma. Tudo costurado em rima e poesia. Pingando aos cachos, gotejando lá dentro, bem fundo, no coração do menino.
Não há como fugir da memória... No poema O luar, Mário Quintana registrou: “o tempo não pára! A saudade é que faz as coisas pararem no tempo...” Mas não param de uma forma estática. A cada bafejo da saudade, elas se rearrumam, despem-se e tornam a se vestir com outras indumentárias. É a dinâmica da memória a re-fabricar fatos, ora para alimentar sonhos presentes, ora para abafar sonhos idos. Trata-se de um mecanismo vital como o aparelho digestivo ou circulatório. E quando ele engripa, engripamos juntos.
E os passarinhos? Eles agora revoam por outras plagas ou no canto necessário, que ecoa dos poetas.
A saudade tem as suas asas e vozes...
31 de outubro de 2001.
terça-feira, 2 de março de 2010
Márcia
Márcia, tem nome tem mar
com suas ondas e seus mistérios.
Tem Cumbuco, tem rock.
Mas, sobretudo, tem o sal da lágrima
que não pude esconder
ante o encanto de teus olhos.
Praia do Cumbuco, num longínquo julho de 1989.
com suas ondas e seus mistérios.
Tem Cumbuco, tem rock.
Mas, sobretudo, tem o sal da lágrima
que não pude esconder
ante o encanto de teus olhos.
Praia do Cumbuco, num longínquo julho de 1989.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Uma certa professora e mãe
Em meados dos anos 40, uma jovenzinha de nada percorre, numa montaria, as três léguas do Monte Alegre à casa de Margarida na Vila Alta, onde se asseia, veste a farda do grupo escolar e vai para as lições a pé. É outubro, quando o sertão espraia-se mais luminoso, sem fronteira, sebe, curral. Os seus passinhos firmes e resolutos são indiferentes ao sol do meio dia: trêmulo, amarelo, voraz.
Por esse tempo, já morto o pai, a escola exigiu sapato fechado para a assistência às aulas. Dinheiro pouco, irmãos muitos, o que fazer? Se fosse só ela, mas havia a irmã que estudava também... A solução veio de outra irmã — a primogênita. Compra-se um par e cada uma vai com um pé do sapato e um curativo no outro. E assim se fez.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis irmãos mais novos, meninos, soltos na bagaceira do engenho em frente à casa, na folga dos afazeres domésticos. O futuro não se espera, mas se constrói, sabia. E ali, em meio às caçadas de passarinhos, ao pião de goiabeira, ao pastoril dos animais, se introduz letras, números, palavras... O pouco sabido é ensinado, dividido, multiplicado. E ali, se aprende, sobretudo, o gosto pelo aprender. E ali, o matemático, o engenheiro, o juiz, o administrador e o capitão de infantaria começaram a ser salvos, sob os brancos dias cearenses.
Conta um desses meninos que, quando já rapaz e estudando no Recife, escrevera para a irmã das primeiras letras uma carta cheia de novidades e pedindo, ansioso, notícias para apaziguar a saudade. Recebida a resposta, sofregamente aberto o envelope, a decepção: tratava-se da mesma carta enviada, com as devidas correções gramaticais.
A escola normal cursou no Colégio Santa Teresa e as primeiras aulas oficiais ministrou no Colégio Diocesano, ambos no Crato. Veio o casamento e a mudança para a cidade de Brejo Santo, já mãe de um garoto de nove meses.
É desse tempo o seu primeiro contrato com o Estado. Vice-diretoria no Grupo José Matias Sampaio e aulas no Colégio Balbina Viana Arrais. Faculdade? Só no Crato, a oitenta quilômetros, estrada carroçável, intransitável no período das chuvas. Não há outro jeito, vencer exige sacrifício. E após alguns anos e uns filhos a mais, forma-se em Letras Neolatinas com especialização em Francês. Merci beaucoup, agradecia a todos e a seu Bom Deus.
Retorno ao Crato com cinco rebentos a tiracolo — o sexto não tardaria a chegar. Como também não demorou a que o marido passasse a trabalhar fora da cidade, forçando-a a se desdobrar em mãe, pai e educadora. Colégio Estadual Wilson Gonçalves, Delegacia da Educação, Grupo Escolar Estado da Paraíba — escola modelo —, aulas na Faculdade de Filosofia e acompanhamento das atividades dos filhos. Outra faculdade. Pós-graduação. Secretária de Educação e Cultura do Município.
Corre-corre intenso, mas sem lamúria. Não há avançado da hora que impossibili-te tirar a dúvida de um filho. Pés dentro da bacia de água fria para afugentar o sono, o objeto direto, a oração sem sujeito, meninos e meninas aprendendo a ser sujeito de suas vidas. Não há avançado da hora que impossibilite o ato extremo do amor: a doação sem reservas.
Não há avançado da hora, do dia, do tempo que não reforce no coração e na vida de cada filho seu, a grandeza de seu papel de mãe e educadora amorosa.
Muito obrigado.
Fortaleza, 05 de abril de 2006.
Por esse tempo, já morto o pai, a escola exigiu sapato fechado para a assistência às aulas. Dinheiro pouco, irmãos muitos, o que fazer? Se fosse só ela, mas havia a irmã que estudava também... A solução veio de outra irmã — a primogênita. Compra-se um par e cada uma vai com um pé do sapato e um curativo no outro. E assim se fez.
Um, dois, três, quatro, cinco, seis. Seis irmãos mais novos, meninos, soltos na bagaceira do engenho em frente à casa, na folga dos afazeres domésticos. O futuro não se espera, mas se constrói, sabia. E ali, em meio às caçadas de passarinhos, ao pião de goiabeira, ao pastoril dos animais, se introduz letras, números, palavras... O pouco sabido é ensinado, dividido, multiplicado. E ali, se aprende, sobretudo, o gosto pelo aprender. E ali, o matemático, o engenheiro, o juiz, o administrador e o capitão de infantaria começaram a ser salvos, sob os brancos dias cearenses.
Conta um desses meninos que, quando já rapaz e estudando no Recife, escrevera para a irmã das primeiras letras uma carta cheia de novidades e pedindo, ansioso, notícias para apaziguar a saudade. Recebida a resposta, sofregamente aberto o envelope, a decepção: tratava-se da mesma carta enviada, com as devidas correções gramaticais.
A escola normal cursou no Colégio Santa Teresa e as primeiras aulas oficiais ministrou no Colégio Diocesano, ambos no Crato. Veio o casamento e a mudança para a cidade de Brejo Santo, já mãe de um garoto de nove meses.
É desse tempo o seu primeiro contrato com o Estado. Vice-diretoria no Grupo José Matias Sampaio e aulas no Colégio Balbina Viana Arrais. Faculdade? Só no Crato, a oitenta quilômetros, estrada carroçável, intransitável no período das chuvas. Não há outro jeito, vencer exige sacrifício. E após alguns anos e uns filhos a mais, forma-se em Letras Neolatinas com especialização em Francês. Merci beaucoup, agradecia a todos e a seu Bom Deus.
Retorno ao Crato com cinco rebentos a tiracolo — o sexto não tardaria a chegar. Como também não demorou a que o marido passasse a trabalhar fora da cidade, forçando-a a se desdobrar em mãe, pai e educadora. Colégio Estadual Wilson Gonçalves, Delegacia da Educação, Grupo Escolar Estado da Paraíba — escola modelo —, aulas na Faculdade de Filosofia e acompanhamento das atividades dos filhos. Outra faculdade. Pós-graduação. Secretária de Educação e Cultura do Município.
Corre-corre intenso, mas sem lamúria. Não há avançado da hora que impossibili-te tirar a dúvida de um filho. Pés dentro da bacia de água fria para afugentar o sono, o objeto direto, a oração sem sujeito, meninos e meninas aprendendo a ser sujeito de suas vidas. Não há avançado da hora que impossibilite o ato extremo do amor: a doação sem reservas.
Não há avançado da hora, do dia, do tempo que não reforce no coração e na vida de cada filho seu, a grandeza de seu papel de mãe e educadora amorosa.
Muito obrigado.
Fortaleza, 05 de abril de 2006.
Mensagem lida no Jubileu do Colégio Cinelândia.
10 acertos
Poderia ter sido um.
Como poderia não ter sido: sem acerto.
Mas não chegaram a cem.
Ficamos nos dez: desacertos.
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