Tia Rosa da Misericórdia
Brasil preto, branco, azul, anil. Brasil multicor. Brasil negro. Escravo. Brasil de raças mil. Meu Brasil. Meu povo. Bom. Generoso.
Brasil de tia Rosa. Freira negra. De coração vasto. Educadora. Mãe preta. Tia Rosa do Sítio Misericórdia, Lameiro, Crato, lá no sul do Ceará. Tia Rosa de minha infância, perdido que estava entre macaubeiras e caçadas de passarinhos. Entre um banho e outro de riacho. A oração na capela simples. O toque do sino chamando para o almoço. O terço no cair da tarde. E as estórias...
A nossa tia Rosa preta. Mãe das crianças pobres, das mães das crianças pobres. Um sol negro com as pessoas a descrever suas órbitas de precisões: um remédio, um conselho, o pão, o trabalho. Sentada na cadeira de balanço, paciente ouvia, falava, resolvia. Para tudo há-se um jeito. E havia.
Junto ao estábulo, a escolinha. Tia Rosa diretora, administradora. Mais: provedora. Em meio às necessidades tantas, acionava um amigo, outro, outro, outro... E muito rico do Crato emprestou a Deus. E o estábulo virou Escola Irmã Gertrudes Callou. E muita criança catando uma letra aqui, outra acolá, foi escrevendo uma história diferente daquela que o destino a condenara.
Tia preta Rosa, já não tens o mesmo vigor físico. Porém, és a mesma rosa preta que um dia Deus plantou no massapê macio da Misericórdia. Não te conheci botão, mas rosa madura. E hoje, ao ver-te rosa plenamente desabrochada, compreendo um pouquinho mais o mistério de Deus. Obrigado.
Fortaleza, 12/janeiro/1999.
domingo, 4 de setembro de 2011
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