VINTE
ANOS
faço
anos hoje
sentado
na sala defronte do vídeo
onde
a burguesia brasileira vê sangrar
seus
sonhos
em
pinceladas de comerciais imbecis
meio
dia
e
o cigarro queima no cinzeiro
e
nuvens no céu
fazem
em bordado o tecido pânico dessa tarde
remédio
é comércio
e
este maldito dente
a
me tirar o humor com uma dor aguda
o
carteiro passou com parabéns pela data
mas
a festa se materializou
na
carne dura do capão morto
servido
à cabidela
e
não sabe ele
o
porquê de seu sangue a pichar de vermelho
a
verde grama do quintal
onde
a mangueira fabrica a textura de seus frutos
onde
o açúcar se encadeia em cristais invisíveis
a
alimentar
a
carne pouca de meu ser
não
sabia o capão de meus olhos vazando passado
não
sabia da dor do tempo
que
zarpa em cheiros e essências
inundando
em cheia
o
pequeno fio que a vida traça e desenvolve
a
costureira (Eunice) costura nessa tarde
compenetrada
em seu ofício
enquanto
a seu lado
completo
anos
e
só há a máquina elétrica com seu grito trêmulo
esó
há a roupa a ser cozida
e
só seu mundo em novelos de linha
saberá
ela do emaranhado da vida vida
a
se tecer a cada instante?
o
gato dorme no almofadão da sala!
e
esse odor de pequi
a
penetrar pelas narinas
confere
ao arroz o sabor da terra
que
me viu encarnado de sangue
emergindo
das entranhas de uma mulher
que
me ensinaram a chamar de mãe
isso
depois, muito depois...
terra
que se faz presente
na
minha textura de carne e osso
consubstanciando
assim
agora
o
porém da saudade
e
esse cheiro de pequi
a
invadir pelas narinas
traz
o tempero líquido de uma lágrima
num
tempo distante
longe
quando
à
beira de um açude
mordi
o caroço do danado
e
fiquei ali plasmado ante aquele mar doce
a
boca que mais parecia traseiro de índio
em
faroeste americano
flechada
de espinhos
quanto
não se elaborou sob o sol daquelas tardes
maquinada
em pensamentos vastos e desengrenados?
quando,
por exemplo,
a
matinée do Cine Alvorada
(que
era à tarde)
acionava
nossos corações de menino
e
saíamos dali à procura do revólver de alumínio
jogado
nalgum canto
daquela
casa de telhas novas
e
bem longe
lá
no coração geográfico do país
impõe-se
o AI 5,
que
fulminou mais gente
que
o mocinho bem intencionado da fita em cinemascope
como
tinha medo de terroristas!
Aquelas
caras em retrato 6 por 9
Pregadas
na parede do Banco de crédito Comercial
Onde
meu pai
Passou
nas horas
a
emprestar dinheiro alheio a juros
enquanto
ele
dava
sua saúde de homem bom
em
troca de uns trocados
para
a educação dos filhos
(em
pleno sertão do Ceará
na
cidade de Brejo Santo
por
onde o trem não passava
mas
por onde passou
muito
nordestino
a
procura da sorte grande
na
grande São Paulo)
e
sob o sol daqueles dias
assisti,
passivo,
à
fome
a
fome que antes de matar
materializou-se
em violência
naquele
sábado
a
feira foi atacada
deu
polícia sangue cadeia
e
a fome ainda hoje existe
pendurada
em cachos
nas
muitas barracas de feira
desse
Nordeste grande
e
a fome ainda hoje existe
pendurada
no cotidiano do brasileiro pobre
no
dia a dia
quer
sob o sol do Nordeste seco
quer
no calor de um forno
nalguma
fábrica
desse
Brasil diverso
e
parecido.
18/02/1982
