domingo, 31 de maio de 2015

VINTE ANOS

faço anos hoje
sentado na sala defronte do vídeo
onde a burguesia brasileira vê sangrar
seus sonhos
em pinceladas de comerciais imbecis

meio dia
e o cigarro queima no cinzeiro
e nuvens no céu
fazem em bordado o tecido pânico dessa tarde

remédio é comércio
e este maldito dente
a me tirar o humor com uma dor aguda

o carteiro passou com parabéns pela data
mas a festa se materializou
na carne dura do capão morto
servido à cabidela
e não sabe ele
o porquê de seu sangue a pichar de vermelho
a verde grama do quintal
onde a mangueira fabrica a textura de seus frutos
onde o açúcar se encadeia em cristais invisíveis
a alimentar
a carne pouca de meu ser

não sabia o capão de meus olhos vazando passado
não sabia da dor do tempo
que zarpa em cheiros e essências
inundando em cheia
o pequeno fio que a vida traça e desenvolve

a costureira (Eunice) costura nessa tarde
compenetrada em seu ofício
enquanto a seu lado
completo anos
e só há a máquina elétrica com seu grito trêmulo
esó há a roupa a ser cozida
e só seu mundo em novelos de linha
saberá ela do emaranhado da vida vida
a se tecer a cada instante?

o gato dorme no almofadão da sala!

e esse odor de pequi
a penetrar pelas narinas
confere ao arroz o sabor da terra
que me viu encarnado de sangue
emergindo das entranhas de uma mulher
que me ensinaram a chamar de mãe

isso depois, muito depois...

terra que se faz presente
na minha textura de carne e osso
consubstanciando
assim
agora
o porém da saudade

e esse cheiro de pequi
a invadir pelas narinas
traz o tempero líquido de uma lágrima
num tempo distante
longe
quando
à beira de um açude
mordi o caroço do danado
e fiquei ali plasmado ante aquele mar doce
a boca que mais parecia traseiro de índio
em faroeste americano
flechada de espinhos

quanto não se elaborou sob o sol daquelas tardes
maquinada em pensamentos vastos e desengrenados?
quando, por exemplo,
a matinée do Cine Alvorada
(que era à tarde)
acionava nossos corações de menino
e saíamos dali à procura do revólver de alumínio
jogado nalgum canto
daquela casa de telhas novas

e bem longe
lá no coração geográfico do país
impõe-se o AI 5,
que fulminou mais gente
que o mocinho bem intencionado da fita em cinemascope

como tinha medo de terroristas!
Aquelas caras em retrato 6 por 9
Pregadas na parede do Banco de crédito Comercial
Onde meu pai
Passou nas horas
a emprestar dinheiro alheio a juros
enquanto ele
dava sua saúde de homem bom
em troca de uns trocados
para a educação dos filhos
(em pleno sertão do Ceará
na cidade de Brejo Santo
por onde o trem não passava
mas por onde passou
muito nordestino
a procura da sorte grande
na grande São Paulo)

e sob o sol daqueles dias
assisti, passivo,
à fome
a fome que antes de matar
materializou-se em violência
naquele sábado
a feira foi atacada
deu polícia sangue cadeia

e a fome ainda hoje existe
pendurada em cachos
nas muitas barracas de feira
desse Nordeste grande
e a fome ainda hoje existe
pendurada no cotidiano do brasileiro pobre
no dia a dia
quer sob o sol do Nordeste seco
quer no calor de um forno
nalguma fábrica
desse Brasil diverso
e
parecido.


18/02/1982